✧“A vida neste mundo é dura como o serviço militar; todos têm de trabalhar pesado, ✧2como o escravo que suspira pela sombra, como o trabalhador que espera o seu salário. ✧3Mês após mês só tenho tido desilusões, e as minhas noites têm sido cheias de aflição. ✧4Essas noites são compridas; eu me canso de me virar na cama até de madrugada e fico perguntando: “Será que já é hora de levantar?” ✧5O meu corpo está coberto de bichos e de cascas de feridas; a minha pele racha, e dela escorre pus. ✧6Os meus dias passam mais depressa do que a lançadeira do tecelão e vão embora sem deixar esperança. ✧7Lembra, ó Deus, que a minha vida é apenas um sopro; os meus olhos nunca mais verão a felicidade. ✧8Tu me vês agora, porém não me verás mais; olharás para mim, mas eu já terei desaparecido. ✧9“Como a nuvem que passa e some, assim aquele que desce ao mundo dos mortos nunca mais volta; ✧10ele não volta para casa; ninguém lembra mais dele. ✧11Por isso, não posso ficar calado. Estou aflito, tenho de falar, preciso me queixar, pois o meu coração está cheio de amargura. ✧12Será que eu sou o Mar ou algum outro monstro do mar para que fiques aí me vigiando? ✧13Quando penso que na cama encontrarei descanso e que o sono aliviará a minha dor, ✧14então me espantas com sonhos e com pesadelos me enches de medo. ✧15Eu prefiro ser estrangulado; é melhor morrer do que viver neste meu corpo. ✧16Detesto a vida; não quero mais viver. Deixa-me em paz, pois a minha vida não vale nada. ✧17“O que somos nós, para que nos dês tanta importância e te preocupes com a gente? ✧18Por que nos vigias todos os dias e a todo instante nos fazes passar por provas? ✧19Quando deixarás de olhar para mim, a fim de que eu tenha um momento de sossego? ✧20Se pequei, que mal fiz a ti, ó vigia das pessoas? Por que fizeste de mim o alvo das tuas flechas? Por acaso, sou uma carga tão pesada assim? ✧21Por que não perdoas o meu pecado e não apagas a minha maldade? Logo estarei na sepultura; tu me procurarás, mas eu não existirei mais.”