Lucas 9 · TB
Tradução Brasileira
Jesus envia os doze apóstolos para pregar e curar, e Herodes fica perplexo com os relatos sobre ele. No capítulo, ocorrem a multiplicação dos pães e peixes, a confissão de Pedro de que Jesus é o Cristo, a transfiguração, a cura de um menino endemoninhado e ensinos sobre o discipulado. Jesus também manifesta a firme resolução de ir a Jerusalém, enfrentando rejeição dos samaritanos e chamando seguidores a um compromisso radical.
Lucas é o único evangelho que faz parte de uma obra em dois volumes, Lucas-Atos. A autoria é tradicionalmente atribuída a Lucas, médico e companheiro de Paulo, mas estudiosos debatem se o autor era um cristão da segunda geração, não necessariamente testemunha ocular. O livro foi escrito provavelmente entre 80 e 90 d.C., para um público gentio e cristão de origem grega, com o objetivo de apresentar uma narrativa ordenada da vida e ministério de Jesus. Neste capítulo, Lucas 9, o evangelista organiza eventos que marcam uma virada no ministério de Jesus: após a missão dos doze e a multiplicação dos pães, a confissão de Pedro e a transfiguração revelam a identidade divina de Jesus, enquanto o anúncio da paixão e os ensinos sobre discipulado preparam o leitor para a jornada a Jerusalém que começa no versículo 51.
O capítulo 9 está no centro do evangelho de Lucas. Antes, Jesus havia ministrado na Galileia, realizando milagres e ensinando. Agora, ele começa a preparar seus discípulos para o que está por vir: a rejeição, a morte e a ressurreição. A transfiguração (versículos 28-36) é um ponto alto, onde Moisés e Elias aparecem e conversam com Jesus sobre sua "retirada" (em grego, "exodos"), que ele estava para realizar em Jerusalém, uma clara referência à sua morte iminente. A nuvem que os envolve ecoa a presença divina no Antigo Testamento, e a voz do Pai confirma Jesus como o Filho escolhido. A partir do versículo 51, com a expressão "manifestou a firme resolução de ir a Jerusalém", Lucas inicia uma longa seção de viagem (9.51-19.27) que é única em seu evangelho, destacando o propósito de Jesus de cumprir seu destino na cidade santa.
Um detalhe cultural importante está no versículo 5, quando Jesus instrui os discípulos a sacudir o pó dos pés ao sair de uma cidade que os rejeita. Esse gesto, comum entre judeus piedosos ao retornar de terras gentias, simbolizava a separação completa da impureza e rejeição daquela comunidade. Também no versículo 53, a recusa dos samaritanos em receber Jesus porque "o seu rosto era como o de quem ia para Jerusalém" reflete a hostilidade histórica entre judeus e samaritanos, que adoravam no monte Gerizim, não em Jerusalém. Os discípulos Tiago e João, ao pedirem fogo do céu (versículo 54), lembram a história de Elias em 2 Reis 1, mas Jesus os repreende, mostrando uma nova ética de misericórdia.
O versículo 23, "Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me", é frequentemente citado como um chamado ao discipulado radical. No contexto de Lucas, essa afirmação segue imediatamente o primeiro anúncio da paixão de Jesus (versículo 22). A imagem da cruz não era um símbolo de devoção pessoal, mas uma referência direta ao instrumento de execução romano, reservado para criminosos e rebeldes. Jesus está dizendo que segui-lo implica aceitar a mesma rejeição e risco de morte que ele enfrentaria. O versículo 27, "Alguns há dos que estão aqui que de modo algum morrerão até que vejam o reino de Deus", tem gerado debate: alguns interpretam como referência à transfiguração que se segue (versículos 28-36), onde os discípulos veem uma prévia da glória de Jesus; outros, à ressurreição ou ao Pentecostes, quando o reino é inaugurado de forma poderosa.
Tradução Brasileira (TB). Domínio público (edição de 1917/2010).