Hebreus 1 · ARA
Almeida Revista e Atualizada
Este capítulo abre a carta aos Hebreus afirmando que Deus falou de muitas maneiras no passado pelos profetas, mas agora falou definitivamente pelo Filho. O autor apresenta a superioridade de Cristo sobre os anjos, citando uma série de passagens do Antigo Testamento para demonstrar que o Filho é divino, eterno e exaltado à direita de Deus.
A carta aos Hebreus é um escrito anônimo; a tradição antiga atribuiu-a a Paulo, mas desde os primeiros séculos há dúvidas sobre essa autoria. O estilo grego é mais polido que o das cartas paulinas, e a forma de argumentação lembra mais a de um pregador instruído em Alexandria do que a do apóstolo. O destino é incerto: provavelmente uma comunidade de cristãos de origem judaica, que sofria pressão para abandonar a fé e retornar ao judaísmo. A data também é disputada, mas a maioria dos estudiosos situa a carta entre os anos 60 e 90 d.C., antes da destruição do Templo de Jerusalém (70 d.C.) ou logo depois.
Este capítulo funciona como o fundamento teológico de todo o livro. O autor começa contrastando as revelações anteriores (pelos profetas) com a revelação definitiva no Filho. Em seguida, apresenta uma cadeia de citações do Antigo Testamento (Salmos, Deuteronômio, 2 Samuel) para provar que Jesus é superior aos anjos, pois estes são servos, enquanto o Filho é o herdeiro de todas as coisas, o criador e o sustentador do universo. A exaltação do Filho à direita de Deus, após a purificação dos pecados, prepara o argumento central da carta: Cristo é o sumo sacerdote perfeito.
O leitor moderno pode estranhar a preocupação do autor em demonstrar que Jesus é superior aos anjos. No judaísmo do Segundo Templo, os anjos ocupavam um lugar elevado na mediação da Lei (cf. At 7,53; Gl 3,19). Alguns grupos judaicos, como os essênios, davam grande destaque ao culto angélico. Assim, para uma comunidade cristã vinda do judaísmo, era necessário mostrar que Cristo não era um anjo, por mais elevado que fosse, mas o próprio Deus encarnado, digno de adoração.
Os versículos 5 a 13 são frequentemente citados em debates cristológicos para defender a divindade de Cristo. No entanto, é importante notar que o autor não está fazendo uma exegese isolada de cada salmo, mas usando-os dentro de uma tradição judaica que via alguns salmos como messiânicos. A frase 'Tu és meu Filho, hoje te gerei' (Sl 2,7) era entendida no judaísmo como referência ao Messias rei, e o autor a aplica à ressurreição ou entronização de Jesus. O 'hoje' não se refere a uma geração eterna, mas ao momento da exaltação.
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