João 2 · ACF
Almeida Corrigida Fiel
Jesus realiza seu primeiro milagre ao transformar água em vinho em um casamento em Caná, revelando sua glória e fortalecendo a fé de seus discípulos. Em seguida, ele sobe a Jerusalém para a Páscoa e, encontrando o templo tomado por comerciantes e cambistas, os expulsa com violência, declarando que a casa de seu Pai não deve ser casa de negócio.
O Evangelho de João é tradicionalmente atribuído ao apóstolo João, filho de Zebedeu, embora a autoria seja disputada entre estudiosos. A maioria dos pesquisadores data sua composição entre 90 e 100 d.C., em um contexto de tensão entre a comunidade cristã joanina e as sinagogas judaicas. O livro foi escrito para uma audiência mista, de judeus e gentios, com o propósito explícito de mostrar que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que os leitores creiam e tenham vida em seu nome.
Este capítulo ocupa um lugar estratégico no Evangelho de João. Os versículos 1 a 11 narram o primeiro sinal de Jesus, em Caná, que inaugura sua vida pública e antecipa o tema da 'hora' de Jesus, mencionada no verso 4 e que só se cumprirá plenamente na cruz. O milagre da água transformada em vinho aponta para a abundância messiânica e substitui as purificações judaicas (representadas pelas talhas de pedra) por algo novo. Já a partir do verso 13, a purificação do templo, que nos evangelhos sinóticos ocorre perto da paixão, João a coloca no início do ministério de Jesus. Isso não é um erro cronológico, mas uma escolha teológica: para João, Jesus já entra no templo como a autoridade que o substitui, e o incidente prepara o diálogo sobre a destruição e reconstrução do santuário (seu corpo), que anuncia a ressurreição.
Um detalhe cultural relevante é o papel do 'presidente da mesa' ou mestre-sala, que era uma espécie de cerimonialista do banquete, responsável por provar e servir o vinho. As talhas de pedra mencionadas, com capacidade de duas ou três metretas (cerca de 40 a 60 litros cada), totalizavam algo entre 480 e 720 litros de água transformada em vinho. Isso indica a abundância extraordinária do milagre. Outro ponto é que o termo 'purificações dos judeus' se refere a rituais de lavagem de mãos e utensílios antes das refeições, prática comum na época.
Um trecho frequentemente citado fora de contexto é o verso 4, onde Jesus chama sua mãe de 'mulher'. Na cultura do Mediterrâneo antigo, o termo não era rude ou desrespeitoso; era uma forma de tratamento formal e respeitosa. Jesus está estabelecendo uma distância, indicando que seu relacionamento com ela agora está subordinado à sua missão divina. A frase 'Ainda não é chegada minha hora' é um tema-chave joanino: a 'hora' de Jesus é o momento de sua crucificação, ressurreição e glorificação. Ele não está se recusando a agir, mas deixando claro que a iniciativa do milagre não parte de Maria, e sim de sua obediência ao Pai.
Almeida Corrigida Fiel (ACF). © Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil. Texto protegido por direitos autorais.