Gênesis 30 · ACF
Almeida Corrigida Fiel
Neste capítulo, a rivalidade entre Lia e Raquel se intensifica com a disputa por filhos, levando ambas a oferecerem suas servas a Jacó. Após o nascimento de José, Jacó negocia com Labão seu salário e, mediante um estratagema com varas descascadas, aumenta seus rebanhos, preparando o terreno para sua futura saída da casa de Labão.
Gênesis 30 dá continuidade à narrativa patriarcal iniciada em Gênesis 12, focando agora na terceira geração, a de Jacó. O capítulo anterior (29) narrou o encontro de Jacó com Raquel, o engano de Labão que o fez casar-se primeiro com Lia, e o nascimento dos primeiros quatro filhos de Lia. Este capítulo avança a história do crescimento da família de Jacó e de sua riqueza, temas centrais para a promessa divina de uma grande descendência. A tensão com Labão, que começou com o engano do casamento, se intensifica e prepara o terreno para a partida de Jacó no capítulo 31.
A prática de uma esposa estéril dar sua serva ao marido para ter filhos em seu lugar, como Raquel faz com Bila e Lia com Zilpa, era um costume legal do antigo Oriente Médio, atestado em códigos como o de Hamurabi. Os filhos nascidos dessa união eram considerados filhos da esposa principal, e não da serva. A menção das mandrágoras (versículo 14) reflete uma crença antiga de que essa planta, por seu formato e aroma, tinha propriedades afrodisíacas ou de fertilidade, o que explica a disputa entre as irmãs por elas, embora o texto bíblico mostre que foi Deus quem efetivamente abriu ou fechou os ventres.
O episódio do acordo de salário entre Jacó e Labão (versículos 25-43) reflete as práticas pastoris da época. Jacó propõe ficar com os animais de cor diferente (malhados, salpicados e negros), que seriam a minoria em um rebanho tipicamente de cor clara. A tentativa de Labão de fraudar Jacó, separando esses animais e os colocando sob cuidado dos filhos, mostra a desonestidade do sogro. O método de Jacó para influenciar a cor da prole usando varas descascadas (versículos 37-42) reflete uma crença popular antiga na influência visual durante o acasalamento, comum em várias culturas, mas o texto deixa claro que o sucesso de Jacó se deve à bênção de Deus, como ele mesmo reconhecerá no capítulo 31 (versículos 5-9).
O versículo 22, "Lembrou-se Deus de Raquel", é frequentemente citado fora de contexto para sugerir que Deus se esquece de seus filhos. No contexto, a expressão hebraica significa que Deus agiu em favor de Raquel, cumprindo seu propósito e removendo sua aflição (a esterilidade, vista como uma desonra ou "opróbrio", versículo 23). Não se trata de um lapso de memória divino, mas de um agir no tempo determinado por Deus, após um período de aparente silêncio.
Almeida Corrigida Fiel (ACF). © Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil. Texto protegido por direitos autorais.