Ester 1 · ACF
Almeida Corrigida Fiel
O rei Assuero, da Pérsia, realiza um grande banquete para seus nobres, e depois um banquete popular de sete dias. Ao final, ordena que a rainha Vasti se apresente, mas ela recusa; enfurecido, ele consulta seus conselheiros, que o convencem a emitir um decreto depondo Vasti e estabelecendo que toda mulher honre seu marido.
O livro de Ester foi provavelmente escrito por um autor judeu anônimo no período persa, entre os séculos V e IV a.C., para uma comunidade judaica que vivia na diáspora sob domínio persa. O autor demonstra conhecimento íntimo dos costumes da corte persa, mas a historicidade de alguns detalhes é disputada: Assuero é geralmente identificado com Xerxes I (486–465 a.C.), embora o relato não coincida exatamente com fontes persas conhecidas. O capítulo funciona como uma cena de abertura que estabelece o poder e a fragilidade do rei, além de preparar o terreno para a ascensão de Ester: a deposição de Vasti cria a necessidade de uma nova rainha, que será escolhida no capítulo 2.
A descrição do banquete de 180 dias e a exibição de riquezas refletem a prática real persa de ostentar poder e generosidade para consolidar lealdade entre os súditos. Susã (Susa) era uma das capitais do Império Persa, com um palácio real ornamentado. O detalhe sobre a língua: o decreto final ordena que cada homem "fale segundo a língua do seu povo", o que, na prática, reforça a autoridade patriarcal ao determinar que a esposa adote a língua do marido, em um império multilíngue.
O episódio da recusa de Vasti é frequentemente citado em debates sobre a posição da mulher no casamento. No contexto do capítulo, porém, a recusa não é explicada: Vasti pode estar desobedecendo por orgulho, por pudor (já que o rei estava embriagado e a chamou para exibir sua beleza diante de homens), ou por uma questão de protocolo. O texto não julga Vasti, mas mostra que sua ação é interpretada pelos conselheiros como uma ameaça à ordem social patriarcal. O decreto final, que manda toda mulher honrar o marido, é uma resposta política e legal, não uma declaração teológica sobre o casamento.
A lei dos persas e medos, mencionada como irrevogável, é um motivo recorrente no livro (capítulos 1 e 8). Historicamente, não há evidência de que os decretos reais persas fossem irrevogáveis, mas o autor usa esse dispositivo literário para aumentar o drama e a tensão: uma vez que Vasti é deposta, não há como reverter a decisão, e o mesmo problema surgirá mais tarde com o decreto contra os judeus.
Almeida Corrigida Fiel (ACF). © Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil. Texto protegido por direitos autorais.